PERNOCAS EM PERIGO!
Capítulo 1: Quem seria a safada?
Pernocas era um agiota de segunda. Ninguém conseguiria distinguir os negócios dele de uma empresa legalmente estabelecida. Pernocas sabia lavar dinheiro e esconder suas falcatruas como poucos. Só não era um bandido de primeira porque não tinha lá muito bom gosto. Estudou pouco. Falava muito errado. E tanto suas roupas, quanto sua casa, e tudo o mais que lhe pertencia era de uma extravagância ridícula.
Na primeira vez em que vi Pernocas, eu achei que ele era viado. Vestia um terno branco de linho e camisa florida. Parecia um traficante de filme americano. Aqueles bandidos latinos que tanto agradam ao cinema hollywoodiano. Nunca soube o nome do infeliz, mas não estranharia se eu descobrisse que o era Pablo Pernocas.
Na tarde em que Pernocas mandou me chamar eu estava no barbeiro. Ia tosar o pouco cabelo que me resta. Máquina 2, sem dó. Coisa de macho. E de careca! E esse sou eu: Guga Caldas, cineasta macho, careca e aventureiro.
- Levanta daí, Magrelo! - disse a voz atrás de mim.
Eu conhecia aquela voz. Era o Caolho. Um sujeito que já estava na minha cola fazia um tempo. Ele era o cobrador do Pernocas. Quem devia e não pagava, encontrava o caolho. Felizmente, o dito cujo era muito burro e, não raro, os devedores escapavam dele. Eu, modéstia a parte, já devia ter batido o record de vezes em que alguém enganou o Caolho.
- To cortando o cabelo, rapaz. Não ta vendo? - respondi com voz grossa.
- Que cabelo? - debochou o Caolho, levando toda a barbearia a liberar a risada.
Aquilo me deixou puto. O cara mais burro da cidade tinha feito graça com a minha careca.
- O cabelo do teu cú - respondi na delicadeza.
Os otários maneiraram a risada.
- O Pernocas quer te ver.
A essa altura ele já tinha que falar alto, pra superar o barulhinho irritante do aparelho do Jorginho, o barbeiro.
- E nem é pra cobrar a grana que você deve.
Aí sim o assunto me interessou. Muito embora o Caolho pudesse estar mentindo pra finalmente por as mãos em mim. Eu encarei ele. Observei por alguns instantes aquele belo exemplar de jumento vesgo. Aquele olhar de imbecil. Aquele energúmino de quinta categoria. “Ele não tem cérebro pra inventar uma mentira dessas”, concluí.
- Ta bom. Terminando aqui eu vou ver o Pernocas - concordei.
O Caolho me acompanhou lado a lado até o carro. O dele. Eu nunca tive um carro. Todos os quarenta e sete carros que eu bati pertenciam a outras pessoas. Perdão, me enganei. Na verdade foram quarenta e seis. Um deles eu bati duas vezes. Uma belina vermelha da década de setenta, de um sujeito chamado Toninho. Mas um carro velho desses merece uma bela batida.
O Caolho dirigia um Maverick. Sempre achei um desperdício deixar um V8 nas mãos daquele idiota. O QI do carro provavelmente era maior do que o dele. E no entanto, quem estava no comando?
- Eu dirijo - gritei na sacanagem.
- Só eu dirijo o meu carro - atropelou o feioso.
Eu decidi aceitar. Nunca devemos nos meter entre um homem e seu carro. Melhor se meter entre ele e a esposa. Ou entre ele e a mãe. Mas o carro não. O carro é o alvo de todo o apreço do macho moderno.
NO caminho eu pedi ao Caolho que me adiantasse o assunto da conversa.
- O chefe ta com um problema com uma sirigaita.
- Uma vadia? Sacaneou o Pernocas?
- Levou uma grana dele.
- Muita grana?
- Uma bolada do caralho!
- E eu com isso?
- O chefe falou que você conhece a vagabunda. Que é das tuas.
“Das minhas?” Fiquei matutando quem seria. Tinha que ser alguém de fora da cidade pra enganar o Pernocas. E tinha que ser alguém com muita paciência pra aturar o infeliz. E tinha que ser alguém com muitas qualidades pra ser “uma das minhas”. De qualquer jeito, essa mulher, fosse quem fosse, já estava me interessando.
0 comments:
Post a Comment