PERNOCAS EM PERIGO!
Capítulo 3: Antigos romances e tiroteios.
Entrei no escritório do cara sem dar a menor atenção ‘a secretária, que veio atrás de mim, aparentemente tendo um chiliquinho. Um fato incontestável da vida é que, se você quer que uma mulher corra atrás de você, tudo o que você tem que fazer é ignora-la. Todo ser humano tem uma atração natural por que o ignora. As mulheres principalmente. As bonitas então nem se fala. Faz sentido se a gente pensar que não há necessidade de se esforçar pra ter a atenção de alguém que a dá naturalmente. Todo o nosso esforço é pra conseguir a atenção de quem nos ignora. Afinal, todo mundo, mesmo que inconscientemente, precisa de atenção.
A tal secretaria era bonitinha, mas sem graça. Parecia com alguém que eu já tinha comido em uma situação e época diferente, mas eu não me lembrava quem. E também, naquele momento, isso não me interessava. O que me interessava era trocar uma idéia com o patrão dela.
O sujeito estava sentado atrás de uma daquelas mesas tipo Tok Stok. Aliás, todo o escritório parecia uma vitrine daquela loja. E eu sempre detestei esses ambientes arrumadinhos. Gosto mesmo é da bagunça. Ninguém pode sé sentir bem num lugar organizado. Nunca vou entender porque as pessoas gostam disso. Parecia até que ninguém trabalhava naquele lugar.
- Desculpa, Seu Afonso, ele foi entrando... - disse a secretariazinha.
- Isso podia ser desculpa de mulher pega com o amante, não podia? - atropelei com uma piadinha.
O cara me reconheceu assim que pôs os olhos em mim. Eu tinha salvo a pele dele um tempo antes. Graças ‘a habilidade que a mulher do coitado tinha pra convencer homens a fazerem o que ela queria.
- Pode deixar, Dolores, eu conheço ele.
A Dolores - não riam do nome da coitada - saiu de fininho me olhando torto. Não consegui decifrar naqueles poucos segundos em que trocamos olhares, se era tesão ou desconfiança. Prefiro pensar que era tesão. Embora ele ande lado a lado com a desconfiança.
- Da última vez que eu te vi, você levou minha mulher e meu dinheiro. - Reclamou o sujeito puxando uma arma.
“É, ele entendeu errado”, eu pensei comigo.
O cara tinha sido vitima de um tipo dê seqüestro relâmpago uns anos antes. Prenderam ele em casa, e a esposa foi encarregada de arrumar uma grana. No meio da madrugada. Como eu sou um bom samaritano, eu ajudei a garota. A gente pegou a o dinheiro e, de lambuja, eu ainda ajudei a libertar o bacana do marido dela. Da última vez em que vi a garota, ela estava com a bufunfa na mão, caminhando pra encontrar o marido. Mas pelo que o cara estava me dizendo, ela tinha dado no pé com a grana, e deixado o panaca do Afonsinho na mão. E o Afonsinho tava achando que eu tinha culpa no cartório. Não é a toa que o cara tinha um nome tosco desses.
- Olha só, amigão - disse na tranqüilidade - eu não sei da sua mulher. A última vez que eu a vi, ela estava com o seu dinheiro, e indo ao seu encontro.
- Ta dizendo que ela fugiu com o meu dinheiro.
- Isso aí, marujo. Se apruma que você ta perdendo o barco.
- E quem é você, então? O que você tem com isso?
- Guga Caldas, bacana! Cineasta e bom samaritano.
O cara pensou por um tempo ainda com a arma em punho. Eu meditei se dava pra tomar o trabuco dele daquela distancia.
- E se eu não acreditar em você?
- Aí a paçoquinha vai esfarelar, Afonsinho. Vai ser só farinha indo pro ralo.
O cara pensou mais.
- E então porque você voltou?
- Essa é a parte divertida, rapaz. Eu devo uma grana prum sujeito chamado Pernocas. - o Afonsinho torceu o nariz pro nome do agiota - E aparentemente a sua patroa conhece bem o cara...e ele quer que eu encontre ela pra ele.
- Mentira - disse o sujeito num gesto brusco, pronto pra atirar. Tive que desarma-lo enquanto a primeira bala furava o diploma na parede atrás de mim. Era da PUC. O que comprova a minha teoria que os cornos homicidas são todos católicos.
Já com a arma na mão, enquanto o sujeito se borrava atrás da escrivaninha, e ouvindo a gritaria na sala ao lado eu fiz a pergunta crucial:
- Onde eu encontro a porra da tua mulher? Fala logo que eu to perdendo a paciência.
- Eu não sei. Eu não vi mais. Nunca mais. Você mesmo disse. Ela fugiu com o dinheiro.
O panaca estava sendo sincero. Eu sei. Dava pra ouvir os batimentos cardíacos dele.
- Então, da próxima vez que eu aparecer, seja mais educado - disse enquanto me retirava.
Encontrar a tal Natasha ia ser mais difícil do que eu pensava.