A Vizinha sai todo dia as tres
PARTE 3
A porta daquele apartamento só se abriria novamente duas horas depois, enquanto o telefone tocava. O Mineirinho entrou às pressas pra atender o aparelho. Como seu vício mandava, o rapaz já tinha o controle remoto da TV na mão antes mesmo de pegar no telefone. Disse alô quase que ao mesmo tempo em que apertava o “power”, ligando a televisão. Era o seu colega de quarto do outro lado da linha.
- Puta que pariu! Ta chovendo! – informou docemente o Carioca, enquanto a televisão exibia um daqueles noticiários sensacionalistas, no estilo do velho “Aqui e agora”. – Eu achando que ia pegar uma praia, e essa merda de tempo não deixa. Aposto que quando eu chegar a São Paulo vai tar um sol do caralho!
O Mineirinho ameaçou contar sobre sua empreitada, a perseguição à vizinha, mas era mineiro, não gostava de comentar seus feitos, nem os louváveis, nem os fracassados. E essa jornada, que há pouco havia realizado, não era nem um nem outro. Nada demais havia ocorrido. Seguiu a moça a uma distancia segura, nem tão perto que pudesse ser percebido, nem tão longe que não pudesse admirar o “vem, cá, vem, cá” dela. Depois de andar uns quarteirões a pé, pra sorte do rapaz, que não tinha carro, a vizinha entrou num restaurante chinês e ficou lá por mais de uma hora. O Mineirinho já estava quase desistindo de esperar quando a moça finalmente saiu, e voltou pra casa. Só isso: casa – restaurante – casa. Nada de mais. É claro que vale lembrar que, durante o tempo que ela esteve dentro do estabelecimento, o lugar estava fechado. Na verdade, um chinês gordo o fechou justamente depois que ela entrou. Isso sim era curioso. Dava todo um ar de mistério à história. Um chinês gordo, uma morena provocante, um restaurante fechado, coisa de cinema. Mas mesmo assim o rapaz não disse nada ao colega.
A razão do telefonema do Carioca era simples, não tinha mais o que fazer. Estava chovendo no Rio, e quando chove no Rio, a cidade maravilhosa, assim como toda cidade praiana, se torna inútil. Afinal de que serve uma cidade com praia sem sol? Só serve pra ficar dentro de uma casa onde a vista da janela é diferente da habitual. E se é pra ficar trancado em casa, o melhor lugar pra se fazer isso é na nossa própria casa. O Carioca estava na casa dos pais, lugar onde cresceu, deveria se sentir totalmente em casa. Mas não era assim. Quando a gente descobre o sabor de se ter o seu próprio canto, mesmo que ainda sustentado pelo papai, como no caso dos dois rapazes, a gente não quer mais voltar pra casa da família. Não parece mais a nossa casa. Parece a casa do papai. Quem já passou por isso conhece essa sensação. Depois de um tempo morando sozinho, a gente começa a se sentir Visita na casa dos pais. E era assim que o rapaz se sentia no Rio.
Além disso, a principal razão para a viajem do Carioca, que era o jogo do Flamengo contra o Coríntians, só aconteceria no dia seguinte. Assim sendo, a existência do rapaz não tinha propósito naquele dia. Tinha se tornado um daqueles dias que todos nós gostaríamos de saltar pra chegar logo numa data mais interessante e significativa. Como um feriado, ou o dia de um encontro com uma loira gostosa. Coisas assim.
O Carioca narrou suas aventuras na rodoviária. Disse que o baseado que fumaram havia lhe proporcionado uma larica tão absurda, que o rapaz havia gastado todo o dinheiro que tinha no bolso comendo na rodoviária de São Paulo. Como conseqüência ele teve que ligar pra casa e pedir que alguém o buscasse na rodoviária assim que chegou ao Rio. Além disso o Carioca narrou lá umas duas ocorrências sem graça do seu dia. Histórias nas quais ele era a vítima obviamente. A verdade é que rapaz havia ligado só porque, já tendo reclamado de tudo o que existe na cabeça de tantos quantos tivesse encontrado no Rio, ainda não tinha saciado sua necessidade de reclamar da vida, motivada principalmente pela chuva, madrinha de batismo do mau-humor.
Enquanto o Carioca tagarelava do outro lado da linha, o Mineirinho percebeu na tela da TV uma imagem familiar, era uma fachada de um restaurante, o restaurante até o qual havia seguido a vizinha há pouco tempo. O rapaz aumentou o som, deixando de dar atenção ao colega no telefone. No jornal, um repórter histérico fazia um estardalhaço na frente do restaurante do qual entravam e saiam policiais. Logo entrou uma narração. Sobre a narração, na qual se distinguiam termos como “crime hediondo” e “tragédia horrível”, vinham imagens de homens carregando sacos pretos de colocar cadáveres, como aqueles que o Mineirinho via com freqüência no cinema. O repórter então pôs-se a entrevistar um policial, que aparentemente comandava as investigações. O policial falava sobre um incidente que acabara de ocorrer. Alguém havia entrado no lugar e feito uma festinha. Matou três. Dois deles a tiros e o último, aparentemente, com um cutelo, mas pelo tamanho do ferimento eles não descartava a possibilidade de ter sido um machado. Depois cortaram fora os genitais. Isso mesmo, capação pós-mortem.
Um frio súbito percorreu a espinha do rapaz. “A vizinha matou aqueles homens” Pensou “Ela é uma psicopata”. Seus olhos estatelaram, seus pêlos se arrepiaram. Parecia estar ouvindo sinos dentro de sua cabeça. Quando perguntado sobre possíveis suspeitos, o policial falou sobre um jornaleiro que alegou ter visto um rapaz parado durante um bom tempo na esquina. Os sinos na sua cabeça aumentaram, e agora se espalhavam pela casa. Agora era suspeito de assassinato, sua vida estava acabada. O sinos agora poderiam ser ouvidos da esquina. Parando pra respirar por um segundo o rapaz constatou que não eram sinos o que ele ouvia, era a campainha. Tinha alguém à porta.
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