A Vizinha sai todo dia as tres.
PARTE 4
Enquanto o Carioca tagarelava ao telefone, que o Mineirinho, inconscientemente, ainda segurava ao ouvido, e enquanto o repórter estridente relatava com detalhes a violência do crime, o rapaz pôs-se a caminhar em direção à porta. E aquela porta nunca havia estado tão longe. Pensou que talvez fosse a polícia para interrogá-lo. Ou pior, para prendê-lo. Talvez algum vizinho o tivesse reconhecido através da descrição dada pela TV. Talvez o repórter estridente estivesse ali fora esperando pra estampar seu rosto na tela. Se fosse o caso ele cobriria a cabeça com a camisa, como já tinha visto na televisão anteriormente. Só de imaginar o que sua mãe pensaria...ele preso, acusado de assassinato, ainda mais de chineses...A velha teria um ataque. Choraria três dias e três noites. E o Mineirinho tinha pensado nessas possibilidades todas só no primeiro passo. O resto da caminhada foi pra pensar na máfia chinesa. Quando abrisse a porta, o Mineirinho iria se deparar com quatro versões bombadas do Chow Yun Fat. Usando óculos, sobretudo e portando metralhadoras enormes, os três o fuzilariam antes mesmo que ele tivesse terminado de destravar o pino. E fariam isso tudo em câmera lenta. Os cartuchos vazios voando lentamente pra fora das agulhas, esfumaçados, quicando no chão e emitindo sons metálicos. Mas todas essas teorias não se comparavam com o que o rapaz veria pelo olho mágico. O que estava parado ali, do lado de fora da porta, não era a polícia, nem a TV e nem a máfia chinesa. Era bem menor, mais singelo, mais bonito, e não menos apavorante. Era a vizinha. “A psicopata” Pensou “Ela veio pra me matar. Eu sou a única testemunha”.
O rapaz perdeu as estribeiras. Largou o telefone onde estava e correu pra cozinha. O Carioca, que tinha ouvido o estrondo do choque do aparelho com o chão, chamava pelo nome do colega. Uma voz sem graves nem agudos, chamando por uma pessoa numa sala vazia. A Televisão continuava ligada. O Mineirinho chegou à cozinha esbaforido. Seu coração parecia um ensaio de um daqueles grupos baianos com nomes sonoros, tipo babaluque ou tobocundum. Olhou para a janela e pensou que era o melhor caminho. Subiu na pia e saiu pela janela. Ficou ali trepado, pensando pra onde iria. Não tinha pra onde ir. Não havia nenhuma janela próxima a não ser a do seu próprio banheiro, que levaria à do seu quarto. E lá em baixo estava o famoso Pit Bull do zelador, o Godzila (esse era o nome do cão, não do zelador). Latia escandalosamente como quem diz “Comida!”. Talvez o cão se desse por satisfeito com a chave que, ao cair do bolso do Mineirinho, fora abocanhada pelo animal antes mesmo de tocar o chão. Ao entrar no apartamento o rapaz havia colocado a chave de volta no bolso antes de trancar a porta. A porta estava destrancada. A psicopata poderia entrar a qualquer momento.
O Mineirinho se recompôs. Percebendo o ridículo que era estar trepado na janela, com medo de uma moça tão delicada, ele decidiu entrar e atender a porta. “Ela não matou ninguém” Pensou. E concluiu, forçadamente, que era tudo uma coincidência bizarra. Provavelmente a moça também havia visto a reportagem na TV. E nesse caso, ela estaria ainda mais apavorada do que ele e, não encontrando o marido em casa, foi atrás do melhor exemplo masculino do qual havia se lembrado, o Mineirinho. Afinal os mineiros são tidos com homens sérios e respeitáveis, e estava estampada na face do rapaz sua origem. Era mineiro. Um mineiro tiraria aquela situação de letra.
Abriu a porta, mas não muito. Ficou se espremendo entre o umbral e a porta. Uma mão na maçaneta. Se ela tentasse matá-lo ele bateria a porta na cara dela. Atrevida!
- Jornal. – Disse a vizinha. “Confirmado” Pensou o rapaz “Ela assistiu” - Você assina, não é? – Perguntou a moça.
- Como assim?
- Jornal. Eu já vi o porteiro colocar na sua porta. Em cima do tapete que você roubou da gente. – Ele nunca tinha reparado antes, mas a moça tinha um leve olhar de desprezo. Não em relação a ele. Era um daqueles olhares ligeiramente morteiros. As pálpebras pareciam pesadas. Como se estivesse um pouco bêbada. Talvez seja o que Machado de Assis quis dizer com “olhos de ressaca”. Quando ela olhava pra ele, parecia não dar grande importância ao que via. E o olhar não seria diferente se a moça estivesse encarando o Papa em pessoa.
- Jornal? Impresso? Em papel? – “Por que ela quer jornal?” Pensou. Nem ligou pra história do tapete. Se ela não fosse uma psicopata ele até compraria um tapete novo pra ela. Só se ela não fosse. Afinal se ela fosse, o mataria, e não há como comprar um tapete pra alguém estando morto. E se houvesse como, ele provavelmente não o faria. “Que desaforo! Me mata e ainda quer um tapete”.
- É. Impresso. A gente vai pintar o apartamento. A gente precisa forrar o chão.
- Olha, foi o meu amigo que pegou. Eu não tive culpa, ele...
- Do que você tá falando?
- Do tapete.
Ela riu.
- Tudo bem. Meu marido não gostava do tapete. Ele não gosta de nada escuro.
- Tipo o Roberto Carlos?
- Tipo o Roberto Carlos.
Ficaram em silêncio por alguns breves segundos. Ela esperando a resposta sobre os jornais. Ele pensando no marido dela. Além de velho, antipático e careca, o cara ainda tinha manias bizarras. “O que ela ta fazendo com ele?” Pensou novamente. E esse pensamento estava muito melhor fundamentado agora, ali, contemplando aquele decote. O Mineirinho já imaginava aqueles seios aparentemente perfeitos delicadamente repousando nas suas mãos quando foi interrompido pela moça.
- E então?
- Hein?
- Os jornais velhos. Você tem?
- Tenho. Tenho sim. – Sem pensar duas vezes, e ainda com a sensação de que estava conversando com uma psicopata, gostosa, porém psicopata, o Mineirinho fechou a porta na cara da moça e enfiou-se apartamento adentro em busca dos jornais.
Chegou à cozinha pensando que talvez tivesse sido mau-educado. Mas se o tinha feito, o fez por sua própria segurança. São Paulo é assim, o caminho da segurança passa pela falta de educação. Se alguém tenta parar você na rua pra pedir dinheiro, por mais educada que a pessoa seja ao abordá-lo, você tem que ignorá-lo. É a única maneira de não se deixar alugar, e de não dar dinheiro, e não correr o risco de ser assaltado. É possível ver esse tipo de comportamento o tempo todo pelas ruas da cidade. As garotas paulistanas ganharam assim sua fama de mal-educadas. A possibilidade de alguém ser assaltado, ou violentado por quem o aborda na rua, parece grande demais pra se ignorar. As mulheres nessa cidade são treinadas e condicionadas pra ignorar qualquer pessoa que não conheçam. Pro Mineirinho isso ficou evidente, já que havia crescido no interior, onde as pessoas todas se conhecem umas às outras. Agora estava na maior cidade do país, teria que agir segundo o clichê, se quisesse fazer parte do clichê. Juntou os jornais e caminhou em direção à sala. Qual não foi sua surpresa ao encontrar a porta aberta e a moça, que ele havia deixado do lado de fora, em pé no meio da sala. Cagou-se por dentro. Mas só por dentro. Manteve a compostura e estendeu a mão com os jornais. Ao fundo, a TV repetia pela centésima vez a notícia sobre o seqüestro da filhinha do empresário.
- Legal a casa de vocês. – Disse a vizinha olhando ao redor, e ignorando a mão estendida do rapaz.
Aparentemente a moça não queria perder tempo com conversa. Meteu as mãos por baixo da saia abaixou a calcinha num movimento rápido. Desenroscou os pés da calcinha, deixando de lado também as sandálias. Agia com uma puta que recebeu adiantado. Parecia que estava ali pra dar, como se fosse uma obrigação corriqueira. Ergueu a saia e se sentou sobre o hack com as pernas abertas. Todo um universo se abriu para o Mineirinho naquele momento. Contemplou admirado aquilo que mais queria, sem se mover. Lá estava, entre aquelas duas pernas. Os pés balançavam levemente como os de uma menininha. A tatuagem realmente parecia dizer “me coma” daquele ângulo. O rapaz queira tanto estar entre aquelas pernas que nem se deu conta de que já poderia estar lá.
- E aí? Você não vem? – Perguntou a moça impaciente.
Um pouco descoordenado, um pouco apressado, bastante descontrolado, o Minerinho voou pra cima da vizinha. Foi como um bater de palmas em que uma das mão se encaixa na outra fazendo um som seco e rápido. Não foi bom. Mas aos poucos a moça e o rapaz foram se encontrando, e se encaixando, e a coisa foi ficando mais prazerosa. No canto do móvel, do outro lado da TV, o retrato da mãe do Carioca balançava ritmadamente ao som dos gemidos e gritos escandalosos da vizinha. Ela não era nada discreta. E não só era boa na arte, como gostava do que fazia. E muito. E tinha unhas grandes. As costas do Mineirinho gostavam disso.
Quando terminaram (e foi rápido) o Mineirinho se deu conta da porta, ainda aberta. Levantou as calças apressado e, no caminho para fechar a porta, esbarrou na bolsa da moça, que repousava à beira do hack. Nem reparou quando a bolsa tombou, derrubando ao chão batom, escova de cabelo e uma pistola. O rapaz estava tão preocupado em fechar a porta que passou por cima da pistola e nem a viu. Se fosse uma cobra...bem, era uma pistola.
Ao chegar á porta, no entanto, o Mineirinho se deteve por um momento quando viu, parado à porta do número 11, segurando na mão direita uma chave, que já encaixava na fechadura, o vizinho antipático. Isso mesmo, o marido da morena gostosa. “Será que ele ouviu? Ou pior, será que viu?” Pensou. Mas o homem o cumprimentou com um aceno indiferente de cabeça, como sempre fazia, abriu a porta e entrou. O Mineirinho fez o mesmo, fechando a porta na cara do corredor vazio. O corredor não se incomodaria.
Quando se virou, o rapaz deu de cara com a vizinha. Parada a um palmo do seu rosto. Segurava a bolsa, a qual terminava de fechar. Já tinha guardado tudo o que havia caído. Inclusive a arma. Ele não tinha visto. Ela mantinha a mesma expressão de desprezo de sempre. (Excetuando-se o tempo que havia passado gemendo e mordendo o pescoço do rapaz). Nesse momento sua expressão era bem outra. Na verdade, só de lembrar o rapaz já se animava. Era jovem, se animava fácil. Mesmo assim, decidiu antes contar do marido.Disse que ele estava no corredor.
- Você acha que ele viu alguma coisa? – Perguntou a moça. O rapaz disse que não. Queria trepar logo, e o dia inteiro. E a madrugada também. Teria dito qualquer coisa pra mantê-la lá, com as pernas abertas, à sua disposição. Teria se convertido à Igreja Universal se preciso. Diria “abre as pernas em nome do senhor, meu bem” e depois mandaria ver.
- Então ele que se foda! – completou a moça.
Dito isso, se atracaram de novo os dois e foram para o quarto. Mas não se restringiram àquele quarto. O rapaz não tinha levado muitas garotas àquele apartamento até então, queria batizar a casa toda. Não que tivesse levado muitas outras garotas a vários outros apartamentos, afinal antes de viver ali ele morava com os pais. Na verdade, antes da vizinha só estivera com uma única fêmea naquele quarto, uma baixinha ruiva chamada Fabiana. A conhecera na faculdade. Era amiga de uma amiga. Talvez fosse amiga da amiga de uma amiga. Ou amiga da ex-amiga de uma amiga (afinal entre as mulheres sempre há a figura da ex-amiga). O fato é que a tal Fabiana era boazinha, e não era das mais feias. Era bem branquinha e tinha belos peitinhos. Pequenos, mas bem acabados. E não tinha barriga, o que é raro em amigas de amigas. A tal Fabiana tinha um abdômen bem definido,é verdade. Mas compará-la com a vizinha morena não seria justo. Seria como comparar a Gweneth Paltrow à Catherine Zeta Jones. Uma é bonitinha, a outra é perfeita. O Mineirinho fez uma espécie de passeio turístico com a vizinha pela casa. Se esfregaram um pouco na mesa da cozinha, fornicaram no quarto e foram gozar no chuveiro. Quando a noitinha chegou o rapaz estava exausto, mal escureceu e ele já tinha pegado no sono. A vizinha ao seu lado. A arma na bolsa. A bolsa na sala.
2 comments:
"Surpreendente"
(criticas de uma palavra são sempre mais impactantes)
=*
Calma que ainda nem chegamos no Plot Point!
Haha!
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