A Vizinha sai todo dia as tres.
PARTE 5
Pela manhã, ao contrário do que acontecia regularmente, o pinto do Mineirinho estava mole. “Te maltratei ontem, né safado?” Pensou. E começou a imaginar se as mulheres faziam o mesmo às vezes. “Será que elas conversam com suas partes íntimas assim como nós homens conversamos com nossos pintos?” Pensou. “Não” Respondeu pra si mesmo. Considerou que não faria sentido, afinal elas nem se davam o trabalho de dar um nome pras próprias xanas. Elas não tinham aquele formato de órgão independente que o pinto tem, não teria graça dar nome pra elas. O pinto por sua vez dá uma sensação de que não faz parte do resto, apenas vive ali numa espécie de relação de comensalismo, ou coisa parecida. É como se fosse um sócio do sujeito que o possui, e não parte dele. Desta forma tem graça tratá-lo como se tivesse vida própria. Nisso os homens tinham muito mais diversão do que as mulheres. Sempre estavam acompanhados. Tinham no pinto, um camarada inseparável. O Mineirinho chamava o seu de Atadolfo. Um bom nome para um pinto.
Esquecendo por um momento do Atadolfo, o Minerinho constatou que a moça não estava mais ao seu lado. Concluiu que ela provavelmente teria ido pra casa, afinal ela era casada. “Uma mulher casada tem que manter as aparências” Pensou. Uma pena, já tinha se acostumado a estar entre aquelas coxas. “E que coxas! Tomara que ela queira mais” Pensou. E no meio desses devaneios ouviu a campainha tocar. Lembrou-se da tarde anterior, quando achou ter ouvido sinos, e riu de si mesmo. Achou graça em toda aquela história. Lembrou-se do ridículo que havia passado sem que ninguém soubesse. “Ainda bem que ninguém me viu” Pensou. Levantou-se sem pressa. Estava acabado. Caminhou lentamente até a porta de entrada e olhou pelo olho mágico. Era a vizinha.“É, Atadolfo, não vai ter jeito não, hoje você vai esfarelar, filhão!” Pensou enquanto abria a porta.
Tente se lembrar do David Coperfield. Não do livro, mas do mágico. Aquele ilusionista que sempre aparecia no fantástico. Aquele que passou através da muralha da China. E que fez sumir a estátua da liberdade. Pois foi nele que o Mineirinho pensou quando abriu a porta e deu de cara com o vizinho antipático, todo vestido de branco. “Ele não tava aqui quando eu olhei pelo olho mágico” Pensou. Ameaçou fechar a porta e olhar novamente pelo olho mágico, mas foi logo desistindo da idéia ao avistar a arma na mão do vizinho. Não era a mesma arma da bolsa da morena, mas o Mineirinho não sabia disso, pois não tinha visto a pistola da moça. Sabia apenas que tinha um velho antipático e mau-encarado, segurando uma arma à sua porta. “Atadolfo filho da puta, foi você que me meteu nessa” Pensou.
A vizinha também estava lá, ao lado do marido. Trazia, estampada na face, a mesma expressão de desprezo de sempre. O Mineirinho não sabia o que fazer, ou o que dizer, por isso não fez nem disse nada. Ficou lá parado esperando que algum deles tomasse a dianteira. E torceu para que não fosse o velho a fazê-lo. Principalmente se ‘tomar a dianteira’ pra ele significasse atirar no rapaz. Felizmente esse não era o caso. Por trás daqueles óculos escuros enormes devia haver um coração. Talvez o homem enfim nem fosse matá-lo. Talvez Papai Noel existisse.
- Não vai convidar a gente pra entrar? – Disse o velho, e tinha uma voz grave e crocante. Sua voz era tão crocante, que se o velho sustentasse uma única nota durante uns vinte segundos, era bem capaz que o confundissem com uma moto.
- Claro. – disse o Mineirinho abrindo espaço à porta.
Os convidados entraram e se sentaram no sofá. O Mineirinho deixou a porta aberta e se juntou aos dois.
- Você mora com mais um rapaz aqui, não é? – perguntou o velho. A moça não parecia muito disposta a falar. Na verdade, a julgar por seu comportamento, ela raramente falava quando estava na companhia do marido.
- Ele ta viajando. Visitando a família. No Rio. – “Talvez não devesse ter dito isso!” Pensou.
- Isso explica. – e dizendo isso o velho olhou o Mineirinho de cima abaixo – eu achei que o seu amigo é que fosse comer a minha mulher. Você tem cara de ser mais bobo.
O Mineirinho não respondeu. Não que tivesse se incomodado com a ofensa, mas não sabia qual reação encurtaria sua vida, e é sempre mais fácil se arriscar não fazendo nada, do que se arriscar a tomar uma atitude. Adotou a postura tomara-que-ele-não-me-mate, muito popular entre os covardes. Além do mais, não via problema em ter cara de bobo. Na sua opinião de mineiro, aparentar esperteza excluía suas chances de surpreender as pessoas. Ninguém dá as costas pra um pistoleiro com uma arma, mas para o cavalo dele sim. Logo, parecer esperto, na opinião do Mineirinho, era coisa de otário.
- Ela não presta. É insaciável. Tem que trepar pelo menos umas quatro vezes por dia. E ela não gosta de brincar com o dedinho, né amor? – o velho balançou o cabelo da esposa com o cano da arma e sorriu. - Eu descobri isso esses dias. O dedinho é pouco pra ela. O chuveirinho também. Mas ela descobriu um restaurante chinês aqui perto. Parece que ela gosta de um olho puxado. E de pinto pequeno. O seu pinto é pequeno?
Mais uma vez o Mineirinho não respondeu. O velho, no entanto, não gostou e insistiu na pergunta. Os cornos sempre têm esse tipo de curiosidade. O Mineirinho disse que sim pra evitar confusão. Concluiu que encurtaria a conversa dessa forma. Se ele dissesse que era grande o velho ia pedir pra ver e, já que o rapaz ia morrer, pelo menos queria evitar que a cena fosse muito deprimente. Felizmente o velho achou graça ao constatar que o rapaz estava se borrando e não insistiu mais no assunto. Decidiu exibir sua arma. De certa forma não estava mudando de assunto, já que a arma é geralmente considerada uma extensão do falo. O que levou o Mineirinho a pensar, e não dizer, que era ele, o velho, quem devia ter pinto pequeno.
- Tem arma em casa?
- Eu?
- Não. A minha sombra.
- Não.
- Eu carrego a minha pra onde eu vou. Não tenho porte. Ninguém respeita merda de lei nenhuma mesmo!
- É – nesse momento o Mineirinho se lembrou da aposta que o Carioca havia proposto no dia da sua partida. – A gente tava mesmo falando sobre isso outro dia...- Quem sabe, contanto a história, poderia ganhar algum tempo.
- Não me diga.
- É. A gente tava fumando um – nesse momento ameaçou interromper a narrativa, preocupado com a admissão do próprio crime. Mas estava conversando com um psicopata que era casado com uma ninfomaníaca, que diferença ia fazer? – E o Carioca, ele apostou que provavelmente, naquele momento, em cada apartamento desse prédio, uma lei estaria sendo quebrada.
O velho ficou encarando o rapaz por algum tempo. Tinha uma expressão pensativa.
- Então tá. Eu topo a aposta. A gente vai de apartamento em apartamento. Se em cada um deles uma lei estiver sendo quebrada, eu não mato você. – Concluiu.
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