PARTE 6: APARTAMENTO #32
O prédio tinha três andares. No térreo havia uma loja de varais e um boteco. A loja de varais vendia varais, não havia mais o que dizer sobre ela. O Mineirinho não saberia mais o que dizer sobre a loja. Nunca havia entrado nela, nem pretendia. Quem entraria numa loja de varais? Quem teria uma loja de varais? Não é o tipo de estabelecimento que chama a atenção das pessoas. Quem, ao passar em frente a uma loja de varais, olharia para dentro, ansioso para saber das novidades do mercado? Ninguém. Curiosamente, a loja de varais já estava lá antes do boteco ser aberto. E já estava lá antes da quitanda, que ocupara o lugar onde hoje se encontrava o boteco. E já estava lá antes da banca, que precedeu a quitanda. Aparentemente a loja de varais sempre esteve ali, desde a inauguração do prédio, em 1976. Afinal, as pessoas podem comprar revistas em qualquer lugar, podem comprar frutas em diversos estabelecimentos, e há botecos em todas as esquinas. Mas varais não. Que outro ponto comercial no mundo se especializaria em vender varais? Nenhum. Não havia concorrência. O proprietário devia ser um sujeito esperto. Ou uma dona esperta. Podia ser qualquer coisa. Ninguém parecia dar muita importância a isso. Na verdade, as pessoas passavam a vista uma centena de vezes pela fachada da loja, antes de se darem conta de que era uma loja de varais.
Logo ao lado da loja estava o boteco. Um boteco simples. Servia almoço. Comercial com bife, calabresa ou frango. O arroz e o feijão prestavam, mas das carnes, nem o frango se salvava. O bife era cheio de nervos, a calabresa deixava o hálito comprometido por duas ou três semanas, e o frango devia ser pombo. Não é incomum em São Paulo. Todo mundo que come frango em São Paulo já traçou um pombinho sem saber. Coisas da vida. Havia lá no bar, como em todo boteco, um pequeno grupo de dois ou três freqüentadores assíduos. Desses que tomam cachaça pela manhã, pra ter pique pro resto do dia, no almoço, pra abrir o apetite, e depois das seis, pra relaxar. Durante o resto do dia esses sujeitos bebem sem uma desculpa oficial. Só por vício mesmo. São os únicos que têm intimidade o suficiente pra pedir fiado e, de longe, os últimos pra quem o dono do bar daria essa regalia. Todos nós conhecemos esse tipo.
Entre os dois estabelecimentos ficava a entrada do edifício. Lá dentro, emburrado atrás da mesa, e do mau humor, o porteiro Zé embolorava. Como todo bom porteiro ele era nordestino, e se chamava Zé. Provavelmente o sobrenome era Silva. Talvez tivesse um Ribamar aí pelo meio, ou um Nonato. E é claro, ele praticamente falava outra língua. Tinha toda uma ginga, essa língua, mas daí a ser compreensível teria uma longa jornada de aprendizado. Certa vez o interfone tocou e o Carioca foi surpreendido pela palavra “xiguapissa!”, do outro lado. Depois de muita insistência ele conseguiu compreender que aquilo significava “chegou a pizza”.
O prédio tinha dois apartamentos por andar. Três que davam para frente, e três para os fundos. O do Mineirinho era de fundo. O da Vizinha gostosa, e seu marido psicopata, era de frente. Restavam quatro apartamentos. A primeira pergunta do Mineirinho foi óbvia e bem calculada: “O térreo não conta?”. Não. O Velho psicopata decidiu que ficariam só nos apartamentos. “Melhor assim” Pensou o Mineirinho. “Não há como quebrar uma lei numa loja de varais”.
Para decidir por onde começar, o Mineirinho resolveu juntar as informações que tinha. O apartamento 22, logo acima do dele, pertencia aos irmãos Fugiro, que ele mesmo tinha inventado. Nem sabia se realmente existiam ou, caso existissem, se eram irmãos. Era uma incógnita, não era um bom lugar pra começar. Mais acima, no 32, estavam as meninas maconheiras. Esse sim era um bom lugar. Elas sempre tinham drogas em casa. Lá era um ponto garantido. Bom, talvez começasse por ali. Afora isso, não conhecia ninguém no prédio. Sabia que, em algum daqueles apartamentos morava um padre. Torceu pra não cair nesse apartamento tão cedo. Se enrolasse o Velho corno por algum tempo, poderia encontrar uma maneira de sair dessa situação absurda vivo. Talvez o velho gostasse dele e decidisse não matá-lo. Talvez ele conseguisse fugir. Talvez alguém, em algum apartamento tivesse uma arma. Talvez o Corno morresse de velhice antes do último apartamento. De qualquer forma, não seria bom se começasse com o apartamento do padre. Na verdade, não era uma boa idéia começar por um apartamento desconhecido.
O Velho já estava impaciente. Tinha dado cinco minutos pro Mineirinho escolher o primeiro apartamento, e já passava do quarto minuto. O velho decidiu apontar a arma pro rapaz, de modo a apressá-lo. E funcionou. O Mineirinho, que já sabia mais ou menos que caminho seguir, optou pelo certo no lugar do duvidoso. Escolheu o apartamento 32. As meninas não iam falhar com ele naquele momento de necessidade. Aquelas viciadas filhas da puta sempre tinham pelo menos um pouco da erva em casa.
Seguiram em fila indiana pela escada. O vizinho antipático e psicopata parecia estar com pressa pra matar o rapaz. Não tinha paciência pra esperar o elevador. Insistiu pra que fossem de escada, o corno. O Mineirinho não contestou, afinal o velho tinha a arma. A morena reclamou baixinho, mas não com muita convicção. Queria contestar o marido, mas faltavam colhões, ou sobrava senso de autopreservação. Resmungou alguma coisa incompreensível e pôs-se a subir a escada. Ia à frente a moça, seguida pelo Mineirinho, a observar o seu “vem, cá, vem, cá”. E atrás dos dois vinha a arma, empunhada pelo vizinho, cujos óculos escuros refletiam uma versão noir do cenário à sua frente.
O Vizinho não usava óculos escuros, ele os tinha como parte de si mesmo. E olhando agora, o Mineirinho tinha uma impressão completamente diferente do homem. Ocorrera uma mudança, dessas que a gente experimenta quando passa a conhecer pessoalmente, alguém que só conhecia de vista. É verdade que isso pode ocorrer mesmo com alguém que já conhecemos. Não é incomum um adolescente ver no pai um vilão e, com o passar dos anos, perceber que o velho havia sido um bom pai. É uma mudança de ponto de vista. Uma mudança que se passa nos olhos de quem vê, e não no objeto observado. E o Mineirinho experimentava essa sensação naquele exato momento, olhando para o Vizinho antipático. Ele não parecia mais um velho. Tinha as têmporas grisalhas, e a pele marcada e enrugada. Andava meio arqueado como um personagem do cinema expressionista alemão. Às vezes parecia mancar. De leve. Um manco arqueado elegante. Era como uma criatura saída de um livro de ficção, ou de magia. Era como um personagem de Tolkien ou de H. G. Wells. Um misto de Saruman com um Morloch. E não tinha olhos. Só aqueles óculos escuros ligeiramente espelhados, nos quais o Mineirinho via sua própria imagem, escurecida e disforme, o encarando. Era como se flertasse com seu eu maligno ali, dentro dos olhos de vidro do velho antipático. O rapaz não estranharia se o velho nunca tirasse aqueles óculos. Através deles era impossível se imaginar o que se passava na cabeça do homem.
Quando os três chegaram ao terceiro andar, o Velho ordenou ao Mineirinho que tomasse a dianteira, batendo à porta. O rapaz fez o que o homem havia mandado. Bateu uma vez. Sem resposta. A morena começou a roer as unhas. Bateu outra vez. Sem resposta. Mais uma vez, e o velho já estava inquieto. Nada.
- Chuta a porra da porta! – rosnou o Velho.
- Não dá. Eu não sou o Schwarzennegger.
- Tu é homem ou é um saco de batatas?
- Eu não tenho força suficiente pra derrubar a porra da porta. – “E se tivesse, provavelmente não o faria” Pensou.
- Tu é um merda mesmo, né?
O Mineirinho pensou em concordar, só por reflexo, mas optou por manter a dignidade fingindo ignorar. O velho deu um passo à frente e meteu uma bica na porta. A madeira tremeu, mas não houve dano. O velho tentou de novo e mais uma vez falhou. Ia quase atirando na porta quando uma voz mole lá de dentro gritou “Peraê”! Os três ficaram em silêncio. O Velho escondeu a arma nas costas. A luz , que podia ser vista através do olho mágico brilhando dentro da casa, foi bloqueada. Estavam sendo observados, e avaliados. O Mineirinho deu graças a Deus (mesmo sendo ateu) quando ouviu o barulho das trancas sendo removidas. Alguém abria a porta.