PARTE 7
Cara de sono. Estava pálida. Mal conseguia abrir os olhos. O cabelo estava atrapalhado. A menina os encarou pela fresta da porta por um segundo, antes de abrir tudo. E quando finalmente abriu, ela deu as costas para as visitas inesperadas e caminhou cambaleando até o sofá. Um cheiro ruim se espalhou pelo corredor, vindo do apartamento.
- Entraê! – disse com uma voz mole antes de cair no sofá, de bruços.
Os três visitantes, que até então se encontravam parados à porta, finalmente decidiram entrar, sob a iniciativa do Mineirinho. Foi ele que, debruçando-se sobre a menina, constatou:
- Totalmente chapada.
O Velho e a Morena já estavam dentro do apartamento. E como é comum se fazer ao entrar em um lugar desconhecido, os dois estavam distraídos olhando em volta. O apartamento era igual ao do Mineirinho. Até o piso era igual. Mas havia uma diferença gritante entre os dois apartamentos. O dos rapazes estava bem mais arrumado. O que não era incomum. As duas meninas não eram exatamente organizadas. Eram Junkies profissionais. A que abrira a porta, Andréa, nunca ia pra cama sóbria num fim de semana. E raramente ia sozinha. Os dois rapazes já a tinham visto chegar bêbada com uma infinidade de sujeitos estranhos em casa. Subiam pelas escadas, pra ver se o efeito da bebida passava. E no dia seguinte os pobres coitados (literalmente) de Andréa faziam o caminho oposto cabisbaixos. Provavelmente ela percebia o quanto tinha baixado o nível, e providenciava pra que o dito cujo nunca mais voltasse, escorraçando ele de casa. Gisele, a outra moradora do apartamento, não era diferente, dava pra todo mundo que a apertasse de jeito. Rapazes, garotas, animais, tinha tido um caso de três meses com um cabide. Segundo o Carioca, o caso acabou por iniciativa do cabide.
O Velho antipático percebeu de cara as intenções do Mineirinho, só de olhar para aquele apartamento, e pra aquela menina espalhada no sofá, inerte.
- Encontra a merda da maconha logo e vamo embora!!
- Beleza. – Respondeu o rapaz.
O Mineirinho começou a remexer a bagunça. Olhou pela sala toda, e nada. O Velho ficou ali parado esperando e contemplando a menina no sofá. A olhou de cima em baixo, e depois de baixo em cima. Era magrinha e pequena. Estava lá de bruços, com aquela bundinha arredondada protuberando sob a camisa. E era só isso que vestia. Uma camisa e calcinha. Não dava pra ver a calcinha, por que a camisa era bem comprida. Mas dava pra ver boa parte das coxas. Belas coxas. Não eram como as coxas celestiais da Morena, mas eram proporcionais e bem definidas. O velho esticou o braço com a arma até aquelas coxas e, lentamente, empurrou a camiseta para cima. O Mineirinho percebeu o que estava acontecendo e parou sua busca, passando a observar o comportamento do velho. A Morena gostosa, logo atrás do velho, começou a mexer nas pontas das mechas. Estava excitada, afinal ainda não tinha dado nesse dia. Isso pra ela era aflitivo. O Velho ergueu a camisa da menina até a cintura, expondo a calcinha branca de algodão. O Velho sorriu com o canto da boca. A Morena, não se segurando, abraçou o Velho por trás. O Velho se virou num gesto brusco e, segurando o rosto da esposa com a mão, empurrou-a contra a parede. A Morena bateu a cabeça, soltando um gemido de dor. O Velho apontou o dedo para o rosto dela.
- Já disse que hoje você não vai dar! Não vai ver cara de pica nenhuma! Putinha de merda! – E ao perceber que o Mineirinho tinha cessado sua busca, o Velho virou sua arma na direção do rapaz. – E você, já desistiu? Vai entregar o pontos? – O Mineirinho engoliu o medo com o resto da saliva e apontou para uma porta.
- Vou olhar o resto da casa.
O Velho mandou que esperasse, fechou a porta da frente, até agora aberta, pegou a esposa pelo braço com força, empurrou-a na direção do rapaz, e foram os três explorar o resto da casa, deixando Andréa na sala de bunda pra cima.
Encontraram a cozinha encoberta por embalagens vazias e cheiros azedos. Restos de pizza harmonizavam-se com as caixas de leite dando um toque de sutil podridão. Alguma coisa girou no estômago da Morena e conduziu sua mão à boca. O Mineirinho já tinha estado naquele apartamento antes, e sabia que não era um palácio, mas aquele nível de sujeira não era comum. Não fazia muito mais do que uma semana desde que vira as meninas pela última vez. Tinham ido ali, ele e o Carioca, beberam cerveja, fumaram maconha, e até ganharam um pouco da erva. Justamente aquela que eles tinham fumado no dia em que o Carioca partiu. Mas naquele dia, a casa estava em melhor estado, e não tinha aquele cheiro. Um cheiro forte de embrulhar o estômago. Alguma coisa estava apodrecendo ali, e avisava a casa inteira disso. Se alguém não tomasse uma atitude, o cheiro avisaria o prédio inteiro.
O Mineirinho não tinha tempo pra se preocupar com higiene naquela hora. Ainda mais em se tratando daquelas duas. Decidiu se concentrar em sua busca, que não estava dando resultado. O rapaz revirou a cozinha inteira, não encontrando nada. “Merda” Pensou “A filha da puta da Andréa consumiu tudo o que tinha na casa”. Mas mesmo assim deveria haver um indício, uma binga, uma seringa, qualquer coisa. Deveria haver algo ali que comprovasse o consumo da droga.
Andréa apareceu à porta, cambaleando, ignorou os três visitantes, caminhou até a geladeira e abriu a porta. A geladeira estava praticamente vazia. Tinha apenas uma maçã, mussarela embolorada, e ovos. Além de um cacho de banana. “Quem guarda banana na geladeira?” Pensou o Mineirinho. A menina pegou a maçã, se virou, fechou a geladeira e encarou o rapaz.
- E aí.
- Tá melhor?
A menina não respondeu e voltou cambaleando pra sala. O Velho esticou a cabeça pela porta a tempo de vê-la se esparramar novamente no sofá, derrubando a maçã sobre o tapete.
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