Capítulo 6: Madrugada sem Deus.
Nós sempre procuramos nas outras pessoas os nossos próprios defeitos. Já faz um tempo que eu reparo nisso. Um sujeito aproveitador sempre reconhece um igual. Uma pessoa invejosa frequentemente se sente invejada. Isso é comum. Nossos defeitos são parte do nosso cotidiano e, por isso, é fácil reconhece-los em outras pessoas. Enquanto eu conversava com Natasha, percebi claramente no tom de voz dela, nos trejeitos, e na escolha das palavras, que se tratava de uma pessoa manipuladora. Do tipo que venderia a própria mãe. Eu sei porque eu também sou.
Dentro daquela saínha de couro apertada, Natasha tentava me convencer a matar Pernocas. Pernocas - o cara do nome ridículo - era um agiota que tinha me mandado atrás dela. Mas a vadia tinha espírito esportivo. Ela mesma me procurou e agora tentava aplicar o velho golpe do “eu pago o dobro” em mim. Ela queria se livrar do Pernocas. E eu bem que podia usar o dinheiro. Mas, sabe como é, não seria um boa atitude profissional. Mesmo entre os bandidos e os canalhas existe um código de ética. Nesse código existem duas regras: A primeira diz que não se pode mudar de lado por dinheiro; A segunda diz que não se pode comer a mãe do outro. Por mais gostosa que a velhota seja.
A proposta da garota, no entanto, me deu uma idéia. Eu poderia fingir que topava pra chegar ao dinheiro que Natasha tinha roubado do Pernocas. Mas para isso, eu precisaria pelo menos chegar perto o suficiente do cara. Pra parecer que eu realmente ia mata-lo. E a primeira coisa a fazer era me livrar do Caolho, o guarda-costas.
- Que ce quer? - perguntou o feioso depois de me dar um esporro por ligar tão tarde. Já passava das duas da manhã.
- Preciso de um favor.
- Precisa o caralho!
- É pra resolver o problema do Pernocas.
O feioso fez silêncio por um tempo. Imaginei que ele estava pensando, embora o cheiro não pudesse ser sentido através do telefone.
- E do que se trata?
- É o marido da piranha. Acho que ele mentiu pra mim. Acho que ele ta escondendo ela. Mas não posso ficar de guarda na casa dele. Tenho que seguir uma outra pista.
- E você quer que eu faça isso?
- Não. Quero que você dance balet. Acho que seu corpinho vai ficar lindo dentro de uma daquelas saínhas frufru.
- Não folga!
- Nunca.
- Espera, que eu vou falar com o Pernocas.
O feioso demorou, mas topou.
Agora o Caolho ia passar umas horas parado na porta da casa de um mané que não tinha nada com a história. Assim eu poderia invadir facilmente a casa de Pernocas e mata-lo. Digo, fingir matá-lo.
- Por que eu tenho que ir junto? - perguntou Natasha enquanto seguíamos de carro para a casa de Pernocas.
- Porque eu não confio em você. E não quero correr o risco de apagar o cara e não ser pago. Da última vez que eu te vi, você levou toda a grana e me fez parecer culpado. Não vou acreditar que você virou santinha.
- Você não ia gostar se eu virasse santinha.
Ela tinha razão. Eu realmente não gostaria. Não sou chegado a santos. Nem mesmo acredito em Deus. Por isso estava na estrada a caminho da casa de Pernocas, o agiota, para mata-lo. Digo,... fingir mata-lo.