Parte 7
O Mineirinho sugeriu que fossem até o quarto dar uma olhada. Pensando bem, elas deviam guardar a droga no quarto. Era o lugar mais provável. Devia estar lá, no fundo de alguma gaveta. O Velho torceu a cara e foi atrás. A Morena, calada, e ainda com a mão na cabeça, sentindo o galo da pancada contra a parede, seguiu com os dois. O Mineirinho foi o primeiro a ver, seguido pelo Velho, e pela Morena que, não se contendo, vomitou ali mesmo na porta. Alguns respingos voaram no sapato do Velho, que não gostou e empurrou a moça pra fora do quarto. Gisele estava na cama, inchada e verde. Nunca havia sido muito bonita, mas não era verde. Estava morta. E já devia estar assim há algum tempo. E o cheio era bem mais forte ali dentro. O Mineirinho chegou a pensar que “Gisele está Morta” seria um bom título para um poema. E se sobrevivesse a toda essa historia, escreveria um poema para a amiga verde e inchada. Mas esse pensamento apenas bateu em sua cabeça e seguiu viagem rumo ao esquecimento. Tinha coisas mais imediatas o incomodando. Como um velho psicopata, um cadáver e uma aposta estúpida que podia custar sua vida.
A menina estava deitada de costas. A boca aberta. Provavelmente overdose. Tinha marcas de agulha no braço. Um final intenso para uma vida curta e intensa. Teria muitas histórias pra contar quando chegasse ao céu, se existisse um céu. Ou ao inferno, que com certeza existe. Mas Gisele não se lembraria de muitos detalhes dessas histórias porque tinha passado a maior parte do tempo chapada.
- A gente devia chamar a polícia? – perguntou o Mineirinho para o Velho, recebendo como resposta um tapa na nuca.
- Sem fazer graça, moleque!
Os dois ficaram por algum tempo ali, olhando para o defunto verde, sem trocar palavras. Provavelmente cada um se lembrando de antigos contatos com a morte. Provavelmente pensando na morte dos avós, o tradicional primeiro contato que todos têm com a dita experiência, tema constante de redações de segundo grau. E depois de alguns minutos (não muitos), o Mineirinho foi surpreendido por uma frase saída da boca do Velho:
- Esqueci a merda do farol aceso. Meu carro deve estar sem bateria a essa hora.
- Acontece – respondeu o rapaz. O Velho o encarou por um segundo. Sabe-se lá o porquê. Pode ter sido um momento de simpatia, ou pode ter sido desejo homicida. O Mineirinho não poderia distinguir nada através daqueles óculos escuros. Tudo o que via ali era a si mesmo, amedrontado.
- A outra menina tá indo pro mesmo caminho. Desperdício. Você devia ter comido ela em vez da minha mulher. Quem sabe ela não ia estar viva. Você podia ter dado um sentido à vida da piranhinha. Agora vai ter que procurar a merda da droga aqui com o defunto. Eu vou esperar na sala.
O Mineirinho observou o Velho deixando o quarto. Encarou a moça verde. Fez o sinal da cruz, mesmo sendo ateu. Em seguida, o rapaz começou a procura pelo recinto, mas o cheiro incomodava muito. Aquilo embrulhava o estômago. E misturado com o cheiro do vômito da Morena ali, na porta, estava ficando insuportável. Talvez ser assassinado não fosse tão ruim assim. E o Velho ainda teria que se livrar do corpo. “Vai dar mais trabalho a ele do que a mim”. Foi assim, no momento em que ia tentar mover o defunto esverdeado, pra olhar embaixo, que o Mineirinho teve a ideia que o salvaria daquela situação nojenta. Deixou ali o corpo em estado de putrefação, o vômito da Morena, e as esperanças de encontrar drogas naquele apartamento, e foi para a sala, confrontar a ameaça iminente.
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